Lençóis Paulista,
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Promessa
de Vingança Hildebrando
Pafundi
"Brasil!
Um país rico, culto, sonhador e pobre,
mas onde se oculta toda riqueza cultural
que ainda sobrou neste Planeta". (Gilberto
Lopes Teixeira, 1983)** Zé
de Freitas e seu filho Severino encontraram naquela favela de São
Bernardo do Campo o local ideal para morar, depois que Maria de Freitas,
mulher do Zé, fugiu com outro e eles foram despejados. Ele ficou
desempregado, passou a viver de bicos e deixou atrasar o aluguel por vários
meses. Apesar da miséria, dos riscos de desabamento do barraco de
madeira e da falta de uma mulher na vida dos dois, eles iam levando a
vida. Mas,
na realidade, outras coisas importantes faltavam para eles e para a
comunidade, que vivia naqueles pouco mais de 50 barracos, erguidos na
beira de um córrego poluído ou pendurados Everaldo,
ovelha negra da favela, traficante de drogas e briguento, um dia aplicou
uma tremenda surra no Zé de Freitas, por causa de uma pequena dívida.
Um empréstimo para a compra de remédios para o filho e que ainda não
conseguira pagar. Zé de Freitas prometeu vingança. Porém, como estava
muito velho, passou a incumbência ao filho Severino: ---
Quando você crescer, filho, vinga essa desfeita. Anos
mais tarde, quando o pai já havia morrido, Severino se armou de uma
faca bem afiada e foi procurar Everaldo. Encontrou-o bebendo cachaça
com amigos em um boteco da favela. ---
Everaldo, quero falar contigo, disse. Everaldo
saiu do bar, risonho, esquecido da antiga briga com o falecido Zé de
Freitas. Severino, com um sorriso nos lábios cumprimentou o valentão,
que nem percebeu que o outro estava armado. A faca afiada penetrou no
pescoço e depois no peito de Everaldo, que sem ser socorrido, morreu
numa poça de sangue. Mas
Everaldo também tinha um filho, Pedro, com 18 anos, que prometeu vingar
a morte do pai. Deixou a barba crescer, como sinal de revolta, e disse
que só iria raspar depois de matar Severino, que havia desaparecido da
favela. A barba foi crescendo e, quando estava muito longa, três anos
depois da promessa, um belo dia, ele apareceu de cara limpa. Havia
raspado a barba, como quem tira um peso da consciência, mas, na
realidade, um disfarce. Vingara a morte do pai. E agora era um
assassino, mas a policia procurava um homem alto, de barba longa,
aparentando cerca de 30 anos. E Pedro, agora sem barba, era um jovem,
que aparentava a idade que tinha: 21 anos. Desapareceu
da favela sem deixar pistas. ___________________________________ A Greve dos Coveiros Hildebrando Pafundi A quantidade de profissionais especializados em cavar sepulturas era muito pequena, apenas cinco homens trabalhavam na necrópole. Por esse motivo, não existia um sindicato da categoria e sim uma sociedade, que foi registrada com o nome de Associação Unida dos Coveiros (AUC), e se reunia uma vez a cada dois meses em caráter ordinário, de acordo com o estatuto da entidade. A assembléia geral dos associados era realizada só uma vez por ano, ou em qualquer época, em caráter extraordinário. Na época da fundação havia duas opções para o nome da entidade. A outra era Associação dos Coveiros Unidos, que foi descartada porque a sigla ACU certamente provocaria muita gozação e piadinhas sem graça entre os freqüentadores dos botequins e entre os aposentados, usuários da praça no centro da cidade. Como eram cinco os fundadores e os associados da entidade, eles acabaram sendo também os membros da diretoria, constituída por presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro. O único que ficou sem cargo assumiu o conselho fiscal. Todos compareceram à assembléia geral extraordinária, realizada no salão dos fundos do Bar Nostalgia, que aprovou a realização da greve a partir do dia 2 de abril de 1979. Chegaram a convidar o Lula, que não pode comparecer devido a outros compromissos, mas enviou um telegrama, lido pelo secretário, no qual desejava "sucesso e vitória para essa sofrida classe de trabalhadores" Não quiseram marcar a greve para dia 1o. de abril, porque ninguém acreditaria. A paralisação acabaria servindo de gozação e piadinhas de mau gosto, que são freqüentes nessa data, quando se comemora o Dia da Mentira. Mas, para azar da unida classe, no dia 1o. foram realizados os três últimos sepultamentos de abril. Não morreu mais ninguém até o final do mês. Mesmo que a greve não fosse decretada, eles ficariam praticamente parados o mês inteiro. Depois de reuniões paralelas das quais participaram alguns vereadores de oposição, os profissionais especializados na abertura de túmulos, que trabalhavam no único cemitério do município, optaram por aprovar o fim da greve, em nova assembléia geral extraordinária realizada no mesmo local, já no final de abril. E no dia seguinte, véspera do Dia Mundial do Trabalho, morreram cinco pessoas idosas naquela pequena cidade de apenas 15 mil habitantes. Setembro/2001 [Clique aqui para ler o Conto Promessa de Vingança do mesmo autor]
Hildebrando
Pafundi, jornalista, escritor, contista e cronista, nasceu |