* 40 anos * Perambulando pelas alamedas da saudade
Final de tarde do dia 31 de dezembro de 1970. Tudo parecia caminhar para as festas da virada, quando bateram à porta de minha casa, lá na rua Sete de Setembro, nº 423, Otavio Ceschi, José Majórico da Silva, mais conhecido com Zé do Pito e João Carlos Lorenzetti. O objetivo da visita era convidar-me para uma tarefa que com certeza me forçaria entrar no ano de 1971 com a barriga encostada a uma máquina. O velho Ceschi era gerente do Jornal Tribuna e da Rádio Difusora que pertenciam a João Carlos Lorenzetti e Zé do Pito era (e ainda é) o técnico, o artista que mantinha e mantém a rádio no ar até hoje. No início daquela tarde, na confraternização de final de ano, o rapaz responsável pela impressão do jornal Tribuna, (não posso dizer o nome) amarrou um baita fogo e não conseguiu terminar o serviço. Saltei sobre a velha bicicleta Monark e voei para a redação e oficina do jornal que ficavam no Jardim Humaitá, atrás da sede do Rotary Club, onde se encontra atualmente as casas dos empresários Célio Rocha Lopes e José Marcos Lorenzetti, cunhado e irmão de João Carlos, respectivamente. O serviço que duraria no máximo duas horas, só foi terminar depois da virada do ano. Nessa época, com apenas 22 anos de idade, eu não tinha o hábito de ingerir bebida alcoólica, mas o velho Ceschi secou umas três ou quatros garrafas de vinho do bom. Nessa noite inesquecível, nos acompanhava o diretor comercial da Tribuna, o grande Jessé Ferraz da Silveira. Além da parte comercial ele cuidava também da distribuição do jornal. Outro que não desgrudava era o Zé do Pito. Esse realmente ama o que faz. Basta dizer que ele empresta seus conhecimentos à rádio e à Tribuna, há mais de 40 anos. Assim que terminei a impressão do último exemplar do jornal, Otávio Ceschi pegou seu velho Delphine e sumiu rumo ao centro da cidade e eu, saltei em cima da minha magrela e virei um chapéu velho, pois afinal de contas era o primeiro dia do ano de 1971 e a minha noiva (hoje minha adorada esposa) estava na igreja e eu teria que encontrá-la. Tomei um banho de gato e sob um chuvisqueiro fino e agradável rumei para a velha Matriz, hoje santuário da Piedade, onde encontrei a outra Piedade, aquela que mais tarde viria ser a mãe de mês filhos. (Voltar para o topo da página)
Perambulando pelas alamedas da saudade!
Ficou linda! Sem dúvidas a praça central de nossa cidade ficou maravilhosa. Passo ao lado dela todo santo dia e nunca paro para admirá-la um pouquinho. Hoje decidi dar uma olhada em tudo. Deste ponto onde me encontro vejo como cenário de fundo a majestosa Matriz da Piedade (Santuário da Piedade). Poxa vida, como Lençóis mudou. Apesar de alguns prédios antigos insistirem em manter suas feições originais, novas fachadas vão dando um ar de cidade moderna, progressista. Basta lembrar que só no centro nervoso da cidade há pelo menos oito lojas de rede, como Lojas Cem, Magazine Luiza, Colombo, entre outras. É ali na região central que se concentram todos os bancos e principais lojas. Contudo, há que se destacar que, muitos estabelecimentos comerciais estão brotando nos diferentes extremos da cidade. Não há bairro que não conte com supermercado, farmácia e tantos outros pontos comerciais que facilitam a vida dos moradores. É o progresso se fazendo presente em toda parte.
Diante de tanta beleza e pujança, me ocorre agora um pensamento que me remete lá para os anos 60. Estou agora com 15 anos de idade e em plena rua 15 de Novembro, esquina com a rua Tibiriçá (Cel Joaquim Anselmo Martins). Não sei exatamente que dia é hoje, mas pela movimentação na Farmácia Popular (banco Itaú) deve ser dia útil. Sei disso porque Rafael Aiello e Wilson Petenazzi proprietários da farmácia, dizem que aos domingos e feriados o número de fregueses é menor em relação aos outros dias da semana. Dou alguns passos, atravesso a rua e entro no Palácio dos Rádios (Loja do Baú). O grande lençoense José Serralvo Sobrinho tenta vender um rádio Pioneer (na minha casa, lá na Barra grande tinha um desses) a um cliente que se não me engano, veio lá da fazenda de Jácomo Augusto Paccola. Estou sem o meu salvator de pulso, mas como o Paschoal Bernadino que trabalha lá no depósito de pinga do Alexandre Paccola já passou para o almoço, imagino que deva ser pouco mais de 10 horas. Ele nunca atrasa para o almoço. Pelo menos é o que o Balim (Lourival Paccola) sempre diz. No outro lado da rua, defronte a loja da dona Carolina Paccola, vejo o Joanim Biral conversando animadamente com o Jura Giacomini. O papo deve estar muito bom porque já faz mais de meia hora que eles estão conversando. Essa gritaria que se ouve não é nada de mais. É um grupo de garotos que travessou a rua correndo e entrou ali no Bar Central (Loja Colombo) para chupar sorvete de palito. Não consigo daqui reconhecer todas as crianças, mas pelo menos o Zézé Coelho e seu irmão Waldir eu tenho certeza que ali estão. Viro-me e olho em direção à prefeitura (Museu) e percebo que bem de frente à casa de Mário Andretto, além dele, estão outras duas ou três pessoas. Um deles eu tenho certeza que é o Germano Turcarreli, um fazendeiro da região de São Domingos, perto do distrito de Afredo Guedes. O outro, não tenho absoluta certeza, mas parece ser Alcebíades Canova. Ele costuma ir conversar com o seu filho Roberto que trabalha no caixa da prefeitura. O barulho que me surpreende agora é da buzina do chevrolezão 1951 do Silvio Capelari. Caramba, como é bonito esse carrão. O Silvio, pai do Nilzo, do Olívio, do Badu e do Arnaldo, é um dos primeiros motoristas de praça da cidade. Olha, esse carro é uma tesão. Lindo mesmo. O seu Antônio Paschoarelli acaba de virar ali na esquina e deu de top o com Bebim (José) Moretto, que saiu da prefeitura. Tá muito distante para eu ouvir a conversa dos dois, mas garanto que estão falando em idioma italiano. O Pachoarelli hospeda o João Gordinho, uma rapaz com deficiência mental que anda assoviando aí pela rua 15. Ele chama todo mundo de “gordinho”. Olha só aquela bicicleta que acabou de encostar ali na oficina dos Irmãos Andretto (Mário, Afonso e Luiz). Sabe de quem é? É do Calú. Grande Carlos Ferrari, um dos maiores pedreiros de Lençóis. O outro rapaz que saiu da oficina e conversa agora com o Calú é João Ranzani, o pedreiro que mais entende de história, geografia e política. Agora estou em frente loja do Nestor Luminatti. Alí no fundo tem uma baita tipografia instalada. O pessoal entra por aqui (rua 15) e saí lá pela rua Ignácio Anselmo. Na esquina, na porta do escritório do Hermínio Jacon (edifício Luiz Paccola) tem um grupinho. Os irmãos Walter e Ângelo Petenazzi estão lá. O Luiz Biral também está lá, mas tem um que eu não conheço. Tem também uma senhora. Deve ser esposa de um deles, mas um dos meus grandes defeitos é não guardar o nome das mulheres. Bom, alí na outra calçada é o ponto de encontro de todo mundo. Na esquina, tem a Loja Paccola – olha lá o Egidio e a dona Iolanda conversando com um cliente. No meio do quarteirão estão o Bar Central, Bar do Chop e um pouco mais adiante, o bar do Baixinho (Antonio Mendonça Machado e seu irmão Ubiraja, O Bira). Antes um pouco, esse bar do baixinho pertenceu ao Euclídes Quintilhano, marido da grande dona Helena Qintilhano). É nesses bares que o pessoal que vem da zona rural para as compras, fazem a parada obrigatória. O bar Central é o ponto dos ônibus que vêm de Botucatu, sentido Bauru. Já os que fazem o itinerário Bauru/Botucatu, param no bar Guarani, ali na frente onde tem aquelas crianças brincado na rua. Poxa vida, acabo de perder o salto de meu sapato aqui na junta dos paralelepípedos. Essa botina de pelica foi o Bepe Mazetto quem fez. Ele tem uma sapataria ali na rua Cel Joaquim Gabriel, pouco acima da loja do Giovanino Cicconi. Sabe, apesar de eu ter perdido o salto da minha botina, eu adoro ruas pavimentadas com essas pedras. Sei que em algumas cidades já se pavimenta as ruas com asfalto, mas pessoalmente, eu acho o paralelepípedo mais romântico. Como eu disse, estou sem o meu salvator de pulso, mas acho que já deve ser perto de 10 e meia . Já faz mais de meia hora que estou aqui perambulando, mas o dever me espera. Faz perto de 5 anos que o velho e querido Alexandre Chitto me aguenta lá na redação do O Eco. Não sei ainda, mas quero ver se aprendo o máximo que puder com ele e depois, quem sabe no futuro, seguir as suas pegadas. Ele realmente é muito bom. Por falar nisso, olha só quem acabou de entrar lá no número 139 da rua Ignácio Anselmo, escritório do seu Chitto e redação e oficina do Jornal O Eco. Aquele é Manoel Cimó, o Neco Cimó. Ele e o Chitto são grandes amigos e sempre que podem batem longos papos. Agora chegou mais gente lá. Ali estão agora José Quadrado, Novaes Capelari, Dailer de Souza e Luiz Malagi. Nem sei como é que cabe tanta gente lá dentro. Semana passada, num só momento, havia oito pessoas reunidas. Todos vieram para conversar com o velho Chitto, que como se sabe, tem um bom papo. A cidade, como sempre está calma e consigo ouvir as músicas que estão sendo tocadas lá na rádio difusora (ZYR 36) que fica no pavimento superior desse prédio que pertence à Família Garrido. Naquele piso, estão a rádio e o escritórios dos Irmãos Capelari. Olha lá o Ademir Toniolo e a Heleninha Medola subindo as escadas para fazerem o programa do meio dia. A porta que dá acesso à escada está no número 138, bem defronte à redação do Eco, onde trabalho junto com Lídio Cezariri, o Pepito. Gente, vocês não conhecem direito o Pepito. Ele é uma figura. Canta o dia inteiro. Como enche o saco. Grande Lídio. Daqui a pouco eu vou lá para ajudá-lo a fazer o Eco. Daqui eu consigo enxergar o avental de sapateiro do Ditinho (Benedito Pereira de Andrade). Lógico que, atrás do avental está o pai do Dori, do Zezé, do Coeio, da Ângela, da Marlei... O Ditinho Sapateiro é carioca. Ele veio a Lençóis para atuar de goleiro do Clube Atlético Lençoense, o CAL. Nos seus bons tempos, ele agarrava s bolas pelas costas. No final da década de 1940, ele jogou com Didi (atualmente na seleção), Belfari, Radamés, Limão, Imparato, Chamé, e outros craques. Pessoa de um humor maravilhoso, ele está a toda hora brincando. Os amigos passam por lá para conversar só para ver se conquistam um pouco dos bons fluídos que estão sempre com ele. Vejam só que interessante. Ao lado da sapataria do Ditinho, está sapataria do Marino de Santis. E olha que eles são concorrentes e bons amigos. Nunca fiquei sabendo que entre os dois tivesse havido alguma coisa. Não! Nunca soube, mesmo. O que será que o Arlindinho Romani vai levando de tão interessante naquela caixa? Ele não deixa ninguém ver e isso deixa as pessoas curiosas. Agora chegou o seu irmão Hélio Romani e deu uma espiadinha, mas pelo jeito nem deu bola para aquilo que possivelmente esteja dentro daquela caixa. Esses dois irmãos são comerciantes em Lençóis há muitos anos. Eles trabalham basicamente com artigos religiosos, com imagens, rosários, estampa de santinhos e artigos para presentes. Agora sim. O Arlindo vai ter que revelar o que tem dentro da tal caixa. É que chegou o outro Hélio, o Ramponi, o relojoeiro. O danado está com uma cara de bravo que só vendo. Nada disso, eles são grandes amigos. O Arlindinho está só brincado, como faz todos os dias. E o Nestor Cicconi...? Lá da esquina ele só observa. O Giovanino , irmão dele, passou e ele nem viu. Lá no fundo da alfaiataria está o Moretinho. O pessoal o chama de Tachinha , sinceramente não sei o primeiro nome dele. Aquele que fala com o Hugo Boso é o Anelo Capoani, marido da excelente professora Norma Conti Capoani. Seu Nelo, como é mais conhecido, diz que dirige automóveis há mais de 40 anos e nunca arranhou um paralama. Fazer o que? Tem que creditar, né? Lá no meio do quarteirão está o escritório de Aristeu Sampaio, irmão do Clovis, do Juarez, do Olavo da dona Cristina casada com o comerciante Narciso Prenhaca. Dona Cristina tem uma loja pouco acima do Bar São Paulo, na Rua Floriano Peixoto (Dr. Antonio Tedesco). Volto o olhar um pouco para a rua 15, e noto que lá atrás, um rapaz conhecido como Mané Telefone (Manoel Garcia) gesticula, tenta dizer alguma coisa a alguém que não está próximo dele. Tranquilo como sempre, ele travessa a rua, entra no bar Central e brinca com Walter Petenazzi que toma uma cervejinha. O também sempre bem humorado Walter retribui a brincadeira que agora conta também com a presença do grande Horácio Moretto. Comerciante, professor, artista plástico, poeta e jornalista. Esses são alguns adjetivos de Horácio Moretto. Esse rapaz tem a paciência de ir ao mato recolher raízes e dar formas a elas. Ele tem uma coleção de raízes que intitulou de “Natureza Viva”. Esse é mestre. Ali na loja do Egídio Paccola tem uma porção de pessoas. A maioria delas veio da zona rural para fazer suas compras. Muitos compram na Casa Paccola, outros preferem gastar ali na frente, na loja do Atllio Cicconi. Aquele rapaz que está na frente da loja do Atílio é o Dail Lázari. Faz tempo que ele trabalha nessa loja. Olhando aqui para o lado esquerdo, vemos Bar Guarani. Esse é o ponto de encontro do pessoal que discute futebol. Aquele moço que discute com o corintiano Aldo Trecenti, é o palmeirense Uris Paccola. Ao lado, concordando com tudo o que ele fala, está Bepim Placca, dono do bar. Aquele que toca aquela sanfoninha desafinada é Benedito Mussolini, o maior e melhor gari de Lençóis. Ao lado da Colegial, loja do seu Herminio Luminatti, está a banca de revista de Antonio Augusto Correa. Já comprei muitos álbuns de figurinhas e a revista Melodias que traz tudo o que está acontecendo com os artistas, principalmente com aqueles que participam da Jovem Guarda. Não conheço aquelas moças que estão na varanda da casa da dona Jupira de Oliveira Lima, esposa de Ângelo Paccola, pai do Luiz Lúcio, do Dinho, da Lucy e da mulher do Rubinho Orsi, cujo nome eu não me recordo. Alguém me disse que uma delas se chama Teleco, outra é Stela e tem uma que é a Zoli. Ao todo, são seis ou sete moças, mas eu não as conheço, porém posso adiantar e garantir que são muito bonitas. Na porta do Cine Guarany, estão batendo um animado papo o palmeirense Celeste Biral e o seu Orlando Coneglian. Francamente, converso sempre com Orlando, mas não sei o time que ele torce. Estão passando aqui por mim agora os irmãos Lídio e Silvio Bosi. Parece que eles vêm lá do UTC. Lá na outra calçada também estão passando, talvez para o almoço, Duílio e Silvio Capoani. Esses também são irmãos e membros de uma das famílias mais tradicionais em Lençóis. As famílias Carani e Capoani são as responsáveis pela comercialização de veículos na cidade. Atualmente, quem quiser adquirir um veículo pode também se dirigir à Salca (S/A Lençoense de Comércio de Automóveis) que fica ali na esquina da Av. 25 de Janeiro com a Ignácio Anselmo. Um dia eu vou comprar um chevrolezão igual aquele do Silvio Capelari. Ou então, compro um Impala 8 cilindros em “V” igualzinho aquele que o Pedrão (Pedro Natálio Lorenzetti) usa. Tem até toca discos no carro dele. É a modernidade chegando. Daqui a pouco, vai aparecer televisão em cores, podem apostar nisso. Falam por aí que os americanos estão querendo ir à lua. Pode uma coisa dessas? Mas, voltando a falar em carro, olha só quem estacionou o seu Studebaker hidramático verde. O professor Francisco Garrido, o seu Quitinho. Adoro esse carrão, mas tenho que ir de bicicleta para minha casa que fica lá na Barra Grande. Ainda falando em carro, quem tem um carrinho da ora é o seu Luiz Azevedo, chefe da Destilaria. Não sei a marca daquele carro. O seu Luiz é pai do meu amigo Lio. Grande Lio. Olha quem vem aí: veja se não é o meu amigo Demerval, irmão do Chimbica, meu colega de classe no 4º ano primário no colégio Esperança de Oliveira. A nossa professora foi a dona Zilda Paccola, esposa do meu amigo Wilson Grande, gerente da Caixa Econômica Estadual. O Demerval, o Chimbica, a Oneide, a Ozilde, a Ozires e o Augusto são filhos de Pedro Cordeiro dos Santos, o Pedrinnho Carcereiro, antigo defensor do Clube Atlético lençoense. Fico devendo o nome da mãe deles porque como disse, tenho esse defeito de não decorar o nome das mulheres. O ônibus que faz o trajeto Bauru/Botucatu, acaba de estacionar no Bar Guarany, portanto já são 12h. O som gostoso dos sinos da Matriz já se fez ouvir. Daqui a dois minutos ele bate mais 12 vezes. Adoro escutar o sino. Olha lá. Agora sim o velho Alexandre Chtto está indo para o almoço. Como disse anteriormente, estou sem o meu salvator de pulso, mas posso garantir que são 12 horas. Chega. Preciso despertar. Penso que já viajei muito e preciso voltar à realidade de 2011. Tenho que retornar à praça central de onde na realidade eu nem saí e onde de fato estou sentado neste domingo, dia 23 de janeiro de 2011. Fui dar umas voltinhas pelas alamedas, esquinas e ruas da saudade. Muitas dessas pessoas que citei, lamentavelmente já não estão mais entre nós. Deram a sua contribuição para a grandeza deste sagrado pedaço de chão brasileiro conhecido como Lençóis Paulista e foram morar no andar superior, onde a vida é eterna e todos são iguais. Outras queridas pessoas citadas continuam vivendo e contribuindo com o progresso de nossa cidade que, como disse no início deste artigo, continua linda prospera e acolhedora. (Voltar para o topo da página)
Crônica da biquinha
Entra prefeito, saí prefeito e ela está lá. Já foi reformada, ou melhor, pintada, umas novecentas e noventa e nove vezes. É impressionante como os prefeitos gostam de passar uma caiação nela. Há época em que ela fica meio esquecida, suja, fétida, relegada a segundo plano! Depois, parece que dá uma luz na cabeça de alguém e lá vai a brocha com nova demão de caiação. Pronto! Agora, por mais algum tempo ela fica como uma noiva maquiada, produzida, como uma noiva prestes a dizer o ‘sim’. Mas, o implacável tempo se incumbe de desbotar as suas feições e ela volta a ficar um bom tempo carrancuda, igual a um garoto que acaba de derrubar seu pirulito no barro. Contudo, nem os mais insensíveis podem resistir aos seus encantos. Como uma pérola incrustada no mais alto relevo da coroa, apesar da sua pouca estatura, ela permanece imponente, fazendo aquilo que há um século vem fazendo: matando a sede de todos que a procuram. Refiro-me à Biquinha. Lugar pitoresco que viu nascer muitos romances que se transformaram em numerosas proles. Biquinha que viu nascer, viver e morrer muitos dos filhos de Lençóis. Biquinha que no passado serviu de recanto para os saudosos piqueniques. Biquinha que em cujas barrancas oferecia a macia argila para que os artistas de outrora moldassem esculturas, verdadeiras obras de arte que o tempo se incumbiu de dizimar. Hoje, apenas algumas árvores de uma pequena praça a circundam, mas ela era cercada de arbustos verdes, floridos. Seria demasiadamente saudosista dizer que sobre as copas mais altas, uma orquestra de sabiás da laranjeira, sanhaços, azulões, dava o tom para muitos idílios? Muitos amores brotaram aos pés dos imensos açoita-cavalos, ipês, cabriúvas e berobas....outros não prosperaram, mas vêm à memória como uma doce lembrança. Não sei! Não sei se seria exagerar no saudosismo. Até porque não vivenciei isso que estou escrevendo, apenas estou relatando fruto de prosas que sempre tenho com as pessoas mais antigas. O doutor Lydio Luiz Bosi, ou melhor, o meu querido amigo Lidinho, costuma dizer que tem prazer em dizer que é saudosista. Nesse aspecto, sem constrangimento, confesso que penso igual a ele. Do alto do meu pouco mais de meio século de vida, dos quais, oitenta por cento dedicados à arte de pesquisar e escrever senti-me na obrigação de falar sobre a nossa querida Biquinha. Penso que ela é parte integrante da história de nossa cidade que em 2008 comemorou 150 anos de vida. Ela justifica um ditado que há muitos anos é lembrado aqui na terrinha: “Quem bebe água da Biquinha nunca mais deixa Lençóis”. (Voltar para o topo da página)
Benedicto Blanco é jornalista
Eu, sinceramente, não tinha idéia do que estava acontecendo. A movimentação parecia preocupar o pessoal que frequentava o centro de Lençóis Paulista. Por de trás das grossas paredes do antigo prédio que abrigava a redação e oficina do Jornal O Eco (rua Ignácio Anselmo, 139), estávamos Lídio Cesarini e Eu. Na porta, do lado de fora, dois soldados armados com fuzis davam proteção à redação do jornal. Lá dentro, com os cotovelos apoiados à velha escrivaninha, o Mestre Alexandre Chitto acompanhava o desenrolar dos acontecimentos. Jango relutava. Queria, a qualquer custo, permanecer no cargo de presidente da república. Naquela mesma tarde João Belchior Goulart (Jango) renunciou e começava então um período complicado para o povo brasileiro. O regime militar só foi ter fim em abril de 1985, com a eleição de Tancredo Neves que, aliás, nem chegou a tomar posse, entrando em seu lugar José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, ou simplesmente José Sarney. A exemplo de cidades do mesmo porte, Lençóis Paulista toca a vida normalmente. Alexandre Chitto, o grande timoneiro do Jornal O Eco, era um entusiasta da democracia. Extremamente confiante, ele dizia que em curto espaço de tempo o país experimentaria calmaria, que o barco brasileiro iria navegar sob céu de brigadeiro e em águas muito calmas. Não obstante a confiança do mestre, a turbulência durou 21 anos. Calcada basicamente na indústria canavieira, a economia de Lençóis Paulista sobreviveu sem grandes percalços. No regime ditatorial a cidade foi dirigida pelos seguintes prefeitos: Antônio Lorenzetti Filho (1960 a 1964); Dr. Paulo Zillo (1965 a 1968); Antônio Lorenzetti Filho (1969 a 1972). Rubens Pietraróia (1973 a 1976); Ézio Paccola (1977 a 1982); Ideval Paccola (1983 a 1988).
Obs. Os policiais que estavam guardando as portas da redação do jornal O Eco naquele 31 de março de 1964 eram : Soldados JOÃO PERES E ANTONIO NETO. (Voltar para o topo da página)
Benedicto Antonio Carlos Blanco - (Jornalista MTb 24.509)
Parabens pelas colocaçoes e caracteristicas de cd pessoa citada.
abç