UMA HISTÓRIA DE 105 ANOS1
D. Noêmia que acaba de completar 105 anos de uma grande vida, nasceu na pequenina cidade de Bom Jardim, Vila de Nova Friburgo na Serra do Mar, Estado do Rio de Janeiro. Hoje possui 24.500 habitantes. Filha de João José Tavares e de Clara Tavares, cedo sentiu atração pelas águas e já dava suas braçadas no Rio Grande que atravessa o município. Essa atração a seguiu desde os mergulhos no Lago Azul da Serra de Itatiaia, de uma pedra há seis metros de altura, com estilo. Quando no Rio de Janeiro, nos passeios de barca para a Ilha de Paquetá, as braçadas eram até a ilhota de Brocoió partindo da afamada praia da Moreninha, em um percurso de 300 metros. De uma família de quatro irmãos e duas irmãs, entre elas a tia Alda, deficiente auditiva, com quem convivi, conversando normalmente na linguagem dos improvisados gestos. Noêmia já mocinha seguiu para o Rio de Janeiro para trabalhar junto à família do advogado Dr. Alfredo, na rua Paissandú, no bairro das Laranjeiras. Entrementes chegava à Cidade Maravilhosa um jovem italiano com 20 anos, Vicenzo Faillace, nascido na Calábria no vilarejo de Laino Borgo, Comuna da província de Cosenza, em 11 de março de 1900. Veio com outros dois irmãos que tomaram outros rumos, levando o nome Faillace para outras regiões. Esse jovem fixou-se no bairro das Laranjeiras com uma loja de venda e conserto de sapatos na rua Ipiranga número 11. E os dois jovens terminaram por enamorar-se e desse romance nasceu este cidadão carioca.
Porém a vida o deixou quando completava 35 anos, de maneira fulminante.
D. Mema, como sempre gostei de chamá-la, anos depois se introduzia na família de Luca, com quem passamos a conviver na cidade de Rezende. Nicoláu De Luca casado com Kerma, tinha duas filhas, Maria Carmem e Cléo. Nossa convivência era estreita, brincávamos, brigávamos, nos entendíamos e nos desentendíamos como crianças. De Luca morava no Largo do Rosário em um autêntico palacete, cobiçado por muitos, principalmente pela sua arquitetura. Até que ele comprou um sitio, apelidado de “brejão”, pois vivia sempre alagado na época das chuvas. No sítio existia a turfa, uma espécie de argila negra que depois de seca podia ser usada como combustível, tanto nas ferrovias como nos automóveis e caminhões, em um tal de “gasogênio”. E assim foi durante a 2ª Grande Guerra. Grandes crateras restaram com a extração dessa turfa e transformaram-se em lagoas, onde procriavam lambaris e traíras e é onde eu passava minhas férias escolares, pescando, acompanhando a lida com o gado leiteiro e as plantações de tomate e batata, com agricultores japoneses que inovavam até no sistema de irrigação manual.
D. Mema já se introduzira no consultório dentário do irmão do Nicoláu, o Dr. José De Luca, afamado profissional na época, Isto no Rio de Janeiro. Anexo funcionava uma oficina de prótese dentária e minha mãe acabou por tornar-se protética prática, o que lhe animou a vida até a aposentadoria.
Ela lutava pela minha educação. Passei pelo Colégio São Vicente de Paulo, na rua Mariz e Barros, no Rio. Um internato de freiras, no qual aprendi a ser coroinha das missas madrugadoras, quando havia um verdadeiro diálogo em latim entre o padre e o coroinha, que repetia tudo automaticamente; “Dominus vobiscum” - “Et cum espiritu tuo”. “Agnus Dei qui tollis pecatta mundi” - “Miserere Nobis”. O internato acolhia meninas, separadas dos meninos e só se encontravam durante as missas, ficando separados. E trocávamos olhares furtivos e um ou outro sinal mais tímido. Era quase um namoro, à distância.
Depois o Colégio...no bairro do Meier, na Zona Norte, com regime semi-militar. Éramos uma companhia, prestávamos culto à bandeira pela manhã e à tarde. Um grupo ficava de plantão, passando a noite em claro. Existiam cabos, sargentos, tenentes e o comandante era o capitão. Eu cheguei à primeiro sargento! Nos sete de setembro desfilávamos pelo centro do bairro com outras escolas e era motivo de orgulho. Eu me preparava para a prova de admissão ao colégio Pedro II, aspiração de D. Noêmia.
Nessa prova consegui classificação com uma nota razoável. E surge um menino saltitando pelos degraus da escadaria Quem era? O Melchior que passara em primeiro lugar. Fiquei morrendo de inveja do felizardo. Mas ficamos amigos, principalmente porque minha mãe jamais se esqueceu daquele garoto saltitante. Até que um dia atendi ao telefone e era ele que já estava em Lençóis e viera nos visitar, ou melhor, visitar minha mãe! Bem, mas o desejo de minha mãe se completara: eu era aluno do Colégio Pedro II, em regime de internato.
Nessa época morávamos na pensão de Dona Rosa, casada com José Carvalho da Cruz e com dois filhos, Hugo e Edson. Ficamos grandes amigos. O Hugo, recém falecido, sempre me chamava de irmão. Fizemos a Escola Nacional de Química. A pensão ficava na rua do Matoso, próximo à Praça da Bandeira. D. Rosa era muito ativa e alegre e cuidava da ordem da casa com mão de ferro. Promovia bailes e jogos carteados e foi lá que aprendi a dançar e os segredos do baralho, apesar de adolescente. Fiquei fã das corridas de cavalos, e jogava algum dinheirinho. Certa ocasião ganhei 300 cruzeiros, quase um salário mínimo. Recebi o dinheiro, pus no bolso, saí e regressei andando para a pensão, sem qualquer atropelo.
Mudamos para o Engenho de Dentro, em uma pequena vila. Uma casa com dois quartos, sala, cozinha e banheiro e um pequenino quintal. Pela primeira vez sabia o que era morar em uma casa, só nossa e das sobrinhas friburguenses que passaram a morar conosco. Depois de formado, o Dr. Guerreiro que era Diretor do Instituto do Açúcar e do Álcool e cliente do Dr. De Luca me colocou nessa Autarquia, recomendando que prestasse concurso de fiscal. Passei, e era mais um desejo de D. Mema.
“Gosto de viver porque todos gostam de mim!” É sua frase favorita.
Quero homenagear outras mães, avós e bisavós e que levam a vida com naturalidade como: Izabel Eliseu dos Santos, nascida em 29 de abril de 1911, com 100 anos e que ainda gosta de fazer uns joguinhos. É de Avaré, viúva do conhecido Bem Chinês. D. Mariquinha, Maria Romanholi, também com 100 anos, é de 29 de outubro de 1911. Foi costureira quase a vida toda e ainda costura um pouco. É viúva de Salvador Romanholi, seu segundo marido. E Cecília Moretto Biral, com 94 anos completados em em 22 de novembro, nascida em 1917. Ainda costura à máquina e é viúva de Adolfo Biral.
A todas elas parabenizo pela grande vida que levaram e que ainda desfrutam! (Texto escrito pelo jornalista, escritor e historiador Nelson Faillace)