Entrevista com o autor por: Luiz Carlos Sarnento, O Jornal, Rio de Janeiro – 22/09/1973

De repente, dá a impressão de que loucos, bêbados, porteiros de edifícios de Copacabana, prisioneiros, escritores proibidos,  garçons,  garçonetes,  gente faminta,  gente   rica,  gente preta,  gente branca,  vão sair daquela cabeça grisalha e invadir a pequena sala daquele  apartamento de  sexto andar da Avenida Prado Júnior,  em  Copacabana.  São  todos  personagens   bastante  conhecidos  do  público. Todos  criados por Orígenes Lessa,que Jorge Amado considera "um dos maiores contistas de toda a nossa história literária". Mas Orígenes, com um copo de refresco na mão, os impede de sair.

 O papo é rápido:

- Onde nasceu?

- Em Lençóis Paulista.

- Cresceu lá?

- Não.

- Viveu lá?

- Não.

- Gosta da sua cidade?

- Como se tivesse vivido lá a vida inteira.

- Por que?

- Porque.

- Quando nasceu?

- Há controvérsia entre biógrafos.

- Quando começou a ler?

- Aos cinco anos de idade.

- Quando começou a escrever?

- Aos cinco anos de idade.

- Lembra-se do seu primeiro escrito?

- Sim.

- Qual foi?

-"Ivo vê a uva". Era uma cópia.

- Foi bom aluno?

- Péssimo.

- Ensinou alguma vez?

- Sim.

- Foi bom professor?

- Eles não tinham culpa.

- Gosta de trabalhar?

- Odeio.

- Trabalha pouco?

- Como um cão.

- Se deixasse de trabalhar, não morreria de tédio?

- Não. De fome.

- Se ganhasse um milhão na loteria, deixaria de trabalhar?

- Por muito menos, amigo. Por muito menos...

- E passaria a fazer o quê?

- Nada.

- Nem...

- Nem.

- Quantos livros publicou?

- Só contando.

- Possui todos eles?

- Só os inimigos guardam todos os livros de um autor.

- Tem muitos inimigos?

- O problema é deles.

- Gosta de viajar?

- Claro.

- Quantas viagens fez?

- Um bocado.

- Quantos países conhece?

- Nenhum. Mal conheço as ruas do meu bairro.

- Qual o seu escritor favorito?

- O que não chateia.

- Tem boa memória?

- Ou muito me engano ou essa pergunta já foi feita.

- Já sonhou com o Prêmio Nobel?

- Já. Na última vez em que estive na Suécia, há dois anos, pensei até em interpelar a Comissão Julgadora.

- Interpelou?

- Eles falam sueco.

- Já se candidatou à Academia de Letras?

- É muita mão-de-obra...

- Você trabalhou também em propaganda, não é?

- É.

-  Ainda trabalha?

-  Ainda.

-  Gosta?

-  Não.

- Que acha da sociedade de consumo?

- Olho-a como vítima e cúmplice. Como vítima, com revolta. Como cúmplice, com vergonha.

- Você fuma?

- Fumei.

- Deixou?

- Deixei.

-  Foi fácil?

- Não.

- Que conselho daria aos fumantes?

- Não sejam burros.

- Gosta de bater papo?

- Adoro.

 

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Fonte: site da Bmol

Última atualização (Qua, 13 de Outubro de 2010 00:30)

 
Comentários (1)
Muito bom!
1 Qua, 02 de Fevereiro de 2011 15:45
Matheus
Ilário, se todas as entrevistas fossem assim eu assinava a Veja!

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